Síntese e Impressão


Recentemente assisti a um workshop no qual o facilitador falava-nos a respeito da importância de resumir e sintetizar tudo, abordando os temas a partir de grandes áreas de pintura semi-uniformes. A abordagem resume-se a simplificar, excluindo o excesso de detalhes e a descrição minuciosa. Isso faz total sentido, sobretudo se considerarmos que o olho humano não é capaz de abstrair por completo a complexidade de nuances de uma cena. Em suma, a pintura deve buscar reproduzir o que o olho humano por si só já faz na vida real, eliminar a complexidade dos detalhes e sintetizar as informações.

Poucas coisas são mais chatas do que a arte integralmente explicada, óbvia, minuciosamente descrita. Ignora-se que a mente humana é plenamente capaz de preencher por si só certas lacunas. Essa, aliás, é a razão para que nós não pintemos todas as janelas de um prédio distante, por exemplo. Tampouco estamos preocupados em fixar, com requintes de perfeição, o formato retangular dessas janelas, ou descrever em detalhes as divisórias entre suas vidraças. A mera insinuação é suficiente na maior parte dos casos. Assim o expectador pode estabelecer um diálogo com a obra e preencher as informações faltantes de acordo com a sua vontade. É isso que buscamos, deixar algo implícito. As melhores coisas são aquelas que não são ditas, que estão nas entrelinhas. Pessoas misteriosas são muito mais interessantes, enquanto que as que se explicam muito são extremamente entediantes. E, afinal, quão chato torna-se um poema quando o poeta tenta explicá-lo?

Isso tudo resume a importância de sintetizar, de abstrair aquilo que é supérfluo. O excesso de informação só contribui para tornar uma pintura mais enfadonha. Acredito que os primeiros a perceberem e aplicarem essa premissa tenham sido os Impressionistas. Monet, Degas, Sisley, Pissarro, Cezanne, Manet, Bazille, Renoir, eu não consigo pensar em um minuto da minha vida adulta em que eu não amasse suas paisagens e a sua interpretação daquilo que a arte deveria ser. Os Impressionistas representam tudo aquilo que eu acredito ser mais precioso e valioso em termos de arte. Eu arrisco dizer mesmo que eu possivelmente jamais teria me tornado um pintor se não fosse por eles. Verdadeiros artistas de vanguarda, transgressores, revolucionários, modernos. Como eu admiro sua coragem de desafiar o establishment da arte acadêmica do final do século XIX. Como eu amo suas imagens, tanto a ponto de querer esquecê-las, apenas para poder vê-las novamente pela primeira vez.

Foi em São Paulo, no MASP, que eu estive pela primeira vez em frente a um Renoir. E fui completamente tomado de emoção pelas cores e pinceladas, enquanto as lágrimas desciam dos meus olhos de artista jovem. Era uma pintura que eu já conhecia pelas ilustrações dos livros. Quanta sensibilidade! Quanto talento! Quanta beleza! As pinturas de Manet me pareceram ainda mais impressionantes. Que artista! Aliás, foi a propósito de Manet que o escritor Georges Jeannot escreveu:

“Ainda que pintasse de acordo com o modelo, nunca copiava a natureza; as suas simplificações eram magistrais. Tudo era abreviado. Preocupava-o resumir e sintetizar; costumava dizer-me: ‘em arte, a concisão é uma necessidade. O homem conciso faz-nos refletir, o homem falador aborrece-nos’.”

Eu espero jamais esquecer essa lição.

Honestamente, devo dizer: que felicidade poder pintar. Que alegria meus pincéis me proporcionam diariamente. Quão feliz e realizado eu sou por ser um artista. Não consigo vislumbrar uma outra vida que não a que eu vivo, cercado pelas minhas cores e tomado pelo meu próprio ímpeto criativo. Rogo a Deus que me conceda saúde – e mãos firmes –, para que eu possa pintar até a mais avançada idade. Não há nada no mundo que eu deseje mais que isso. Foi Van Gogh que disse:

Quanta beleza na arte. Desde que possamos reter o que vemos, jamais ficamos então deserdados. Nem verdadeiramente solitários, jamais sós.”

Só quem sente sabe do que ele estava falando.

Rodrigo.

Comentários