Primeiros Apontamentos



Há tempos eu sou animado pela ideia de organizar e sistematizar os meus pensamentos sobre pintura em algum lugar. Minha intenção é a de que essas reflexões tornem-se um registro de tudo aquilo que eu acredito em matéria de pintura, e mais, de tudo aquilo que eu aprendi e sigo aprendendo nesses últimos anos de vivência e produção artística. Se algum dia eu vier a discordar daquilo que pensava anteriormente, bem, que bom pra mim, afinal ninguém evolui tendo o mesmo pensamento pra sempre. Se daqui a alguns anos eu reler essas coisas e perceber que ainda penso igual, tão melhor será, pois estarei ainda mais certo de que minhas convicções são firmes e meu propósito é inabalável.

De toda forma, essas anotações servirão para mim como um registro de estudos, anotações técnicas, outras anotações talvez não tão técnicas, mas sobretudo e principalmente um diário de trabalho, um lugar onde eu possa botar pra fora esse turbilhão de pensamentos e crenças que eu carrego dentro da minha alma. Naturalmente este é um espaço aberto e tudo aqui estará publicado e disponível online. Espero, portanto, que possa vir a ser útil para mais alguém. Nunca se sabe.

Se há algo que eu aprendi nesses últimos anos é que, em matéria de pintura, aprende-se muito mais do que apenas sobre pintura. A pintura pode ensinar muitas coisas sobre a vida aliás. Basta imaginar que a maioria das pessoas diga de si para si: “eu não sou capaz de desenhar uma linha reta”. Esse conformismo é responsável por 99,99% de todas as desistências em empreitadas artísticas. É muito comum assumir que a arte seja mera questão de talento inato – ou você tem, ou você não tem –. Ignora-se algo descrito como “curva de aprendizado”. Essa curva presume uma trajetória penosa e extenuante de trabalho, além de uma boa dose de frustração, tal como a vida.

 A questão é que pintar exige grandes proporções de paciência e perseverança. Por exemplo, cada pintura minha demanda, em média, cerca de 4 a 6 horas de trabalho ininterrupto. Em boa parte desse tempo, predomina a sensação de que tudo dará errado. Mas antes se tratasse apenas de uma sensação. Em boa parte dos casos, tudo dá errado de fato, e fica o sentimento de que essas horas foram todas desperdiçadas em trabalho infrutífero. Ora, se há aprendizado, como pode haver tempo perdido? Desde que se esteja aprendendo, não é possível fracassar. Jamais. Os fracassos, aliás, são muito mais importantes que as vitórias. E eu sou grato a Deus todos os dias pelos meus fracassos. Minhas pinturas ruins me ensinaram muito. E, devo dizer, como elas têm sido numerosas, sobretudo as do primeiro ano de trabalho, então esses têm sido anos muito produtivos pra mim.

E foi justamente me baseando nesses anos de trabalho, perpassados por diversos momentos de frustração e fracasso, que eu compilei um conjunto de fundamentos básicos segundo os quais baseio boa parte das minhas crenças e práticas atuais em pintura. No entanto, essas crenças e práticas não são estabelecidas por mim como verdades dogmáticas, o que significa que elas não possuem uma autoridade tal que não possa ser questionada ou modificada pela ação do tempo e de novos aprendizados. São diretivas que ajudam a nortear a prática e materializar uma visão, um modus operandi que, segundo o meu ponto de vista particular, deve me conduzir a melhores resultados. Também não posso admitir que esses fundamentos esgotem todas as possibilidades e tampouco não sejam passíveis de futuros acréscimos, cortes ou correções. Tudo é dinâmico em matéria de aquarela e cada visão subjetiva guarda as próprias especificidades. Ademais, antes de adentrar na questão, cabe acrescentar ainda que conhecer esses fundamentos por si só também não é suficiente. Eles demandam, além da plena compreensão e introjeção, prática e perseverança incansáveis. Nunca se pode praticá-los o suficiente. E – eu estou bastante convencido disso – jamais chegará o dia em que terei pleno domínio sobre todos eles. Contudo, a busca é mais importante. É ela quem move o artista e o faz levantar todos os dias sabendo que pode fazer um trabalho melhor que o do dia anterior. Portanto, é preciso desenhar e pintar sempre, com total afinco e dedicação, sem nunca desistir e sabendo que jamais será o suficiente.

Alguns desses fundamentos são triviais e quase óbvios, mesmo aos aquarelistas mais inexperientes; outros, entretanto, demandarão tal necessidade de aprofundamento pela natureza de sua complexidade, que eu precisarei fazer posts futuros especificamente para tratar deles. Sem mais delongas, seguem os apontamentos:

1. Trata-se de um mito a ideia de que seja necessário pintar toda a extensão da tela. Pequenas áreas utilizando o branco do papel são excelentes representações de áreas iluminadas, os chamados “claros mais claros”;

2. Não pintar áreas de maneira uniforme. Por mais que o objeto aparente uniformidade, há sempre grande variedade tonal na representação das coisas diante da luz, mesmo em objetos planos e superfícies lisas;

3. Não há necessidade de detalhar tudo, é a impressão que conta (este tópico, pequeno em seu enunciado, demanda tanto aprofundamento, que eu me sinto compelido a retomá-lo com mais detalhamento em outra ocasião futura);

4. Constituem os elementos fundamentais da pintura: forma, textura, cor e contraste de valor. Os dois últimos no momento me parecem os mais importantes e os mais difíceis também;

5. Avaliar um valor isoladamente não é suficiente, pois um mesmo valor pode parecer mais ou menos escuro se estiver cercado por uma área mais luminosa ou mais escura. Trata-se de uma ilusão de ótica denominada efeito de campo;

6. Não se preocupar tanto com as bordas (edges), sobretudo no começo da pintura. As primeiras lavagens devem preferencialmente ser feitas sobre o papel molhado, deixando a tinta fluir e espalhar-se segundo a sua própria vontade e determinação. As bordas mais definidas devem preferencialmente ser destacadas no ponto focal da composição;

7. Um dos aspectos mais importantes no que tange o uso das cores é a necessidade de neutralizá-las, ou melhor, destitui-las de saturação antes de aplicá-las sobre o papel. Isso pode ser feito a partir da mistura com certos tons terrosos como o siena ou o âmbar queimados. Porém a técnica mais eficaz é neutralizá-las a partir de seu complementar. Este é o método que, segundo as minhas experimentações, convergiu para os melhores resultados. As cores puras, tais quais vêm na paleta, são extremamente saturadas. As fábricas as produzem assim para que o artista possa controlar, segundo sua vontade, o seu grau de saturação. Além do mais, é mais fácil tirar do que acrescentar saturação. Devemos evitar ao máximo utilizar cores puras, tais quais vêm de fábrica, sob pena de produzir resultados artificiais. Na natureza as cores são geralmente desprovidas do grau de saturação que as cores puras de fábrica apresentam. Eu não posso enfatizar no momento o grau de importância dessa premissa, que só recentemente pude descobrir. Esse é um dos aspectos mais vitais, ao tempo que é aquele que também tem sido mais negligenciado nos livros e nos workshops sobre pintura.   

Essa lista certamente será atualizada com o passar do tempo e eu possivelmente acrescentarei outros aspectos que hei de julgar igualmente importantes. Naturalmente eu deixei de fora alguns fundamentos de base como composição, perspectiva, escala de valores, luz, sombra etc. por julgar que são fundamentos de base e que, como tais, estarão sempre nas entrelinhas.

Espero ser capaz de manter certa regularidade nessas postagens. Considero importante colocar no papel esses pensamentos, não apenas como registro de ideias, mas como um profundo exercício de fixação de todas essas importantes lições. Até mais! Rodrigo.

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