Sobre a arte de última hora
A pergunta que
eu tenho me feito ultimamente é: como Monet, Renoir, Van Gogh, Cezanne – todos
notórios starving artists de sua
época – faziam para comprar tinta? Quero dizer, o que está acontecendo com o
mercado de materiais de arte? Tudo pela hora da morte.
Recentemente
investi um bom dinheiro em tintas profissionais, o que, acredito com todas as
forças da minha alma, deve melhorar substancialmente a qualidade do meu trabalho.
Entretanto, não sei se esse é um “luxo” que eu conseguirei manter regularmente
daqui pra frente. Eu gostaria, mas talvez meu bolso não consiga arcar com as
consequências, o que é realmente uma pena.
A dura
realidade é que os preços dos materiais de arte contrastam sobremaneira com a
dificuldade em vender arte. Como podemos investir em materiais se não
conseguimos vender? A arte não é financeiramente sustentável pra 99.99% dos
artistas, razão pela qual a maioria recorra a ministrar cursos e workshops pra
sobreviver. Não sei o que seria de mim se eu não tivesse um emprego que me
permitisse investir em meus pincéis e cores. Aliás, essa foi uma das principais
razões pra eu ter abandonado a arte em 2002, eu não tinha condições de comprar
material.
Verdade seja
dita, essa não foi a única razão. Eu precisava construir uma carreira (a de
professor de Matemática) e investir tempo e esforço nessa empreitada pra que
tudo desse certo. E deu. Entre frustrações e alguns empregos ruins – alguns extremamente
mal remunerados –, aqui estou eu. Sobrevivi e vivo bem. Mas, sem sombra de
dúvida, abdicar da arte por todo esse tempo foi o maior preço que eu poderia
ter pago. Eu tento não pensar tanto nisso, mas, meu Deus, quanto tempo eu
perdi. Penso no quão bom eu estaria agora e quantas de obras eu teria produzido
nesses 20 anos que eu passei sem segurar um único pincel na mão. É uma lástima.
Mas não adianta se lamuriar, o tempo não volta. A única coisa que eu posso
fazer agora é dedicar meus esforços no tempo que ainda tenho pela frente. Se
esse tempo for mais ou menos longo, quem sabe eu não consiga atingir algo de
alguma relevância? Quem sabe um dia eu possa ver meus quadros expostos em algum
museu? Uma galeria relevante? Premiações? Medalhas? Grandes vendas? Paris?
Ora, sonhar
não custa um centavo sequer.
Não se sabe
que Paul Gauguin começou a pintar aos 35 anos? (!) Trabalhava em uma
instituição financeira como corretor de valores e tomou a decisão mais
importante da sua vida após a quebra da bolsa de Paris. Largou tudo, começou a
pintar, mudou-se para o Taiti, conheceu Van Gogh, de quem foi amigo e
protagonista do episódio da orelha cortada, e ganhou a imortalidade no
pós-impressionismo. Outro exemplo é Henri Rousseau, a quem Picasso idolatrava.
Começou a pintar aos 40 anos. Nunca é tarde.
Portanto, foco
e trabalho.
P.S.: Estou lendo o diário de
Julie Manet. Imagina ser filha de Berthe Morisot, aprender a pintar com ela e ainda
carregar o sobrenome Manet... Que loucura.

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