Sublimar o Trivial

 


Tenho trabalhado com afinco em algumas paisagens e, após alguns fracassos na semana passada, posso dizer que é um alívio voltar a acertar a mão e produzir alguns bons resultados. Eu realmente gostaria muito de ter lido ou escutado de alguém no início o quão importante é “de-saturar” as cores de fábrica. Pra ser totalmente honesto, eu já havia escutado em um podcast que não se deve JAMAIS utilizar cores puras em uma pintura. Portanto, não é como se eu nunca tivesse ouvido falar da questão. O ponto é que, na ocasião, me pareceu uma regra um tanto dogmática, um imperativo sem razão de ser, sem uma justificativa que me parecesse minimamente plausível. Essa, aliás, foi a razão pra eu ter interpretado essa regra antes como uma “mania”, um hábito adquirido por alguns artistas, e não um fundamento estritamente necessário. Na ocasião, a artista entrevistada chegou mesmo a comentar: “eu não me prendo a este tipo de regra. Se eu sentir que devo utilizar a cor pura de fábrica, eu utilizarei”. Eu imediatamente pensei: “Quer saber? Ela tem razão”. Bom, eu e ela estávamos errados. Digo mais, sinto que essa descoberta está mudando a minha pintura e eu não poderia estar mais animado com isso no momento. Meu lado pessimista diz: é mais uma variável para se preocupar; meu lado otimista diz: é mais uma possibilidade de fazer novas coisas, coisas melhores. Bem por aí.

Certa vez, li em uma biografia do Picasso uma nota assinalada no seu diário que dizia: “Jamais chega o dia em que o artista pensa ‘hoje fiz um bom trabalho e amanhã será domingo para mim’”. Essa fala faz total sentido pra mim, tanto e a tal ponto que essa sensação – melhorar e progredir – tornou-se quase um vício, uma obsessão, algo do qual eu necessito e que me faz muito bem. Não há nada como cumprir um dia árduo de trabalho e, ao final, antes de deitar-se, ter aquela sensação de que atingiu-se as metas do dia e que mais um passo foi dado rumo a um objetivo, um sonho.

É realmente difícil saber onde quero chegar com isso tudo, e mais ainda, saber onde isso vai me levar. Por ora, o que me dirige é o desejo de me aprimorar. Quero que as pessoas olhem pra mim e digam: “este artista sente profundamente, ele vê as coisas pela ótica do belo e é capaz de sublimar o trivial transformando-o em algo encantador pela atividade da sua cognição, pela destreza de suas mãos e a sensibilidade de sua alma”.

Não que a ideia de que digam/pensem algo sobre mim me dirija e me governe. Não é isso. Aliás, após algumas experiências extremamente negativas, eu me tornei – intencionalmente – bastante relapso na administração da minha própria promoção enquanto artista. Dispensei oportunidades de exposição e deixei de fazer vendas, porque não gosto de me ocupar divulgando links e fazendo posts nessa direção. O que me dirige de fato, aquilo que me move nessa empreitada, é agradar... a mim mesmo. Essa, acreditem, é uma tarefa que tem sido muito mais difícil do que agradar aos outros. Mas, no momento, o que é mais importante pra mim é que eu esteja satisfeito com o que eu faço. A grande vantagem disso é que nada pode me abalar, já que não dependo da opinião e aprovação dos outros. A grande desvantagem é que os outros costumam gostar mais do meu trabalho que eu mesmo. Paciência.

O outro aspecto importante é a ideia de sublimar o trivial. Sublimar o trivial é algo que realmente me encanta e me chama a atenção. Ivan Shishkin pintou a raiz de uma árvore semi-arrancada por uma tempestade. E é isso, uma raiz, apenas uma raiz. Porém é a raiz mais bela jamais pintada. É possível ficar horas admirando apenas aquele recorte da realidade que alguém decidiu arbitrariamente que seria um tema digno e relevante de ser retratado num quadro. Qualquer pessoa que passasse por essa raiz na vida real possivelmente não daria a mínima atenção. E, no entanto, as pessoas pagam ingresso e enfrentam filas pra ver essa mesma imagem num quadro no museu. O que isso nos diz sobre a arte?

A arte é esse mundo que nos permite ressignificar a realidade e extrair dela os recortes e interpretações que nos convém, pelas razões que nos aprazem. Isso é maravilhoso e eu espero jamais me desligar desse mundo. O meu maior medo é que um dia eu desenvolva algum problema ou sofra algum acidente que me incapacite de pintar. Essa seria possivelmente a maior das tragédias, tirar de um homem aquilo que ele mais ama.

No livro de David Spence, ele conta que Degas ficou cego aos 74 anos e precisou abandonar definitivamente a arte durante os últimos 9 anos de sua vida. Chegou mesmo a ser visto nessa época nos museus, tateando as telas com os dedos. Um verdadeiro artista até o final. Em seus últimos anos, encontrando-se incapaz de trabalhar, Degas sentia-se em constante desespero e escreveu: “eu não penso em nada, senão na morte”.

Eu pensaria o mesmo.

Rodrigo.


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