Sobre decepções na vida e na arte

 


Na última madrugada eu iniciei mais um retrato do Rômulo. Tenho me debruçado em três versões desse mesmo retrato. São exatamente idênticos, a não ser pelo material usado em cada um. O primeiro foi executado em grafite e o segundo era pra ser em carvão. A ideia era utilizar primeiramente essas mídias monocromáticas como forma de estabelecer a ordem dos valores. Entretanto, eu não consegui resistir ao ímpeto de utilizar cores e me apressei em executar a versão em aquarela. Os resultados até aqui foram medianos, eu acho, mas eu possivelmente abandonarei o carvão, porque a ordem em que executei as tarefas tornou esta tarefa meio sem sentido.

A pintura demanda do pintor três diretivas atitudinais importantíssimas: fé, perseverança e capacidade de consertar os erros cometidos. Fui deitar ontem com a certeza de que esta pintura tinha sido completamente arruinada e que não havia mais nada que eu pudesse fazer para modificar isso. Hoje levantei, observei-a por um tempo, avaliei certas possibilidades e decidi continuar trabalhando nela (persistência). Isso, claro, só pode ocorrer quando o pintor acredita na possibilidade do bom resultado (fé). Mesmo a aquarela sendo uma mídia fatalista – não há meios de pintar por cima e refazer –, ainda é possível, em alguns casos, reparar certos tipos de problemas (consertar os erros cometidos). Prossegui e, devo dizer, o resultado saiu um pouco melhor do que eu esperava quando dei tudo por arruinado na madrugada anterior.

Certa vez comentei que a aquarela pode ensinar muito sobre a vida. E acho que essas lições aqui comentadas se aplicam muito bem. Mas acredito que haja uma exceção. Mesmo com os erros, há a possibilidade de consertar as coisas em uma pintura. Se não for possível consertar, há sempre a possibilidade de recomeçar do zero. Na vida não é assim, certas marcas duram e ficam para sempre, porque não há como alterar o passado e consertá-las. Tampouco há como reiniciar tudo do zero. Há apenas términos e novos começos (diferentes). É por isso que viver é mais difícil que pintar. L         


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