Uma nova fase?

    Sempre ouvimos que a vida nos conduz por camihos misteriosos. Amor, trabalho, amizades. Tudo parece ter um propósito maior e as nossas escolhas muitas das vezes parecem ser meros cumprimentos circunstanciais de designeos maiores. Isso vale também para a arte? É a pergunta que eu me falo neste momento.  

    Fiz uma viagem a Belém para visitar meus pais e abraçar o restante da família. O que deveria ter sido um passeio de 2 semanas, transformou-se em um pesadelo que já dura mais de 2 meses. Mamãe adoeceu seriamente. Eu e minha esposa ficamos para auxiliá-la em tudo que podíamos. Pobre mamãe! Eu sofro tanto pela sua atual condição de saúde! Tenho vivido para vê-la cada dia melhor e rogo a Deus para que ela possa ter uma terceira idade digna a partir de agora, com qualidade de vida e cercada de amor e cuidados.

    Diante das duas semanas iniciais de "férias", eu trouxera comigo na mala apenas um pequeno conjunto de canetas nanquim e um caderno de esboços. A ideia inicial era manter-se afiado e praticando. Com a dilatação de nossa estadia em Belém, recorri a um conjunto de tintas escolares do tipo Guache, pertencente aos meus sobrinhos (6 e 9 anos), que encontrei guardados em uma gaveta e a um pequeno conjunto de pincéis infantis coloridos, os únicos disponíveis na loja em frente ao nosso prédio. 

    Com um material tão precário e inadequado ao trabalho artístico sério, era de se esperar que as minhas mãos pouco ou nada pudessem realizar que fosse digno de qualquer nota. E, de fato, convenhamos que os meus resultados não são dignos de um museu. Eu diria que sequer sejam dignos de uma pequena galeria. Entretanto, a surpresa, que prazer pintar a Guache! A viscosidade, a tinta densa e pesada, o alto relevo no papel, que maravilha tudo isso! Laryssa me diz que eu estou fazendo milagres com uma tinta infantil de 14 reais, com baixíssima pigmentação e de qualidade duvidosa.  

    Estou há tanto tempo acostumado (e conformado) à leveza aquosa da aquarela, seu caráter de descontrole e imprevisibilidade que, de alguma forma, é como se um novo mundo se descortinasse diante de mim. É fato que a minha grande resistência ao óleo, a chamada "mídia por excelência", se dá pelo simples fato de que eu não queira lidar com toda a gama de produtos químicos, como terebentina, aguarrás, querosene, óleo de linhaça etc. Portanto, a possibilidade de trabalhar com uma tinta densa que, ainda assim, seja a base de água, me parece encantadora em todos os aspectos.

    Pois eis que em nossa primeira ida ao shopping, eu fui adiante e tratei logo de comprar um pequeno conjunto de tinta acrílica. Cheguei em casa, testei e, confesso, me senti arrebatado. A tinta também é viscosa e densa, mas as possibilidades de controle são maiores em relação à guache. Os resultados também são infinitamente melhores. 

    Não pretendo abandonar minhas queridas aquarelas. Possivelmente essa seguirá sendo a minha principal mídia. Entretanto, estou curioso e fascinado para explorar as novas possibilidades descortinadas pela tinta acrílica. Uma nova fase? Veremos.     

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